Facebookeando por aí eu me deparei com uma coluna excepcional. A autora está registrada como Laís apenas, mas fique claro que o texto não é meu e sim dela.
Porque Amor de Verdade Não Pode Ser Limpinho
Dias desses li uma frase que me deixou incomodada. Era sobre o amor e
a intimidade não combinarem com erotismo. Algo como se o mistério fosse
essencial para que houvesse o tesão. E fiquei intrigada tentando
relembrar transas casuais – relação na qual o mistério predomina -,
mentalizando assim qual foi o nível de satisfação sexual entre
elas. Tudo o que veio em minha mente foi um emaranhado de posições mal
encaixadas, aquele sutil desconforto de deixar o outro ver a luz do
quarto penetrar tua pele nua e seu corpo em posições quem menos te
favorecem, o efeito do álcool passando e a inibição voltando e fazendo
com que você e cara ao teu lado fossem apenas dois estranhos dividindo,
de maneira incômoda, o quarto.
Não me entenda mal, sou super a favor do sexo casual. Dou pra quem eu
quero, a hora que quero e quando eu quero, mas acho que quando se busca
qualidade a intimidade é um ponto a favor. Sabe aquele lance de que a
prática leva a perfeição? Então, por aí. E não me venha tentar imacular o
amor me falando de como esse sentimento é puro não deixando espaço para
a libertinagem. Essa é apenas uma de suas facetas. É que o amor também
sabe ser sujo. E para ter sujeira é preciso existir cumplicidade.
Só com muita intimidade a gente se sente confortável para revelar
nossas vontades mais toscas, nossas taras mais bizarras sem medo de ser
feliz ou de ser taxado como pervertido. Somente quando confiamos em
alguém nos atrevemos a partilhar coisas das quais normalmente nos
envergonharíamos. Não dizia Nelson Rodrigues que “se cada um soubesse o
que o outro faz dentro de quatro paredes, ninguém se cumprimentava”?
Então, ele estava certo. É na quietude dos lençóis branquinhos com
arabescos na fronha em uma cama de casal que mora o perigo. Você pode
descer até todos os inferninhos mais mequetrefes da Augusta. Pode pegar a
puta mais barata e transar com ela em um banheiro onde cheiram cocaína.
Mas isso não chega nem perto da putaria que ocorre no lençol cheirando a
amaciante de uma cama de casal.
O amor é muito mais imundo que qualquer depravação. É aquela vontade
de morder sua axila, de cheirar sua nuca, rasgar seu ombro. Não existe
putaria maior que saborear sem nojo toda a pessoa por inteira, sem
frescuras ou restrições. Amor é nos sentirmos confortáveis com nossos
desejos mais íntimos quando encontramos alguém com quem fazer um pacto
secreto de conivência diante das bizarrices do outro. Algo como: o que
acontece em Vegas, fica em Vegas. É admitir nossa fragilidade e permitir
que o outro faça contigo algo que jamais nos submeteríamos com um
estranho. É o laço de lealdade se aprofundando a cada aumento de
devassidão.
O amor é sujo. Porque o amor é lindo. O amor é feio. Tem cheiro de
mijo. Te leva ao céu. Te tira o chão. Te rouba a consciência. Te surra.
Te esmurra. Te fode de um jeito “te bato porque te amo”. O amor é sujo. E
eu e você somos cúmplices dessa sujeira. Tipo Bonnie e Clyde. A gente
se ama, se entrega. A gente inventa e aperfeiçoa o nosso sexo. A gente
não apenas troca fluídos corporais. A gente fode com a alma. A nossa
sintonia me faz achar as pintinhas do seu ombro a coisa mais tesuda do
mundo e você quase goza só olhando a curva das minhas costas. Quer
putaria mais absurda que essa?
Nota da editora: Lendo essa ótima coluna da Laís, não pude
deixar de lembrar de um trecho sensacional da crônica Pela Noite,
de Caio Fernando Abreu, publicada no livro Triângulo das Águas que
resume muito essa ideia. Ele diz assim:
” Se o outro for bom para você. Se te der vontade de viver. Se o
cheiro do suor do outro também for bom. Se todos os cheiros do corpo do
outro forem bons. O pé, no fim do dia. A boca, de manhã cedo. Bons,
normais, comuns. Coisa de gente. Cheiros íntimos, secretos. Ninguém mais
saberia deles se não enfiasse o nariz lá dentro, a língua lá dentro,
bem dentro, no fundo das carnes, no meio dos cheiros. E se tudo isso que
você acha nojento for exatamente o que chamam de amor? Quando você
chega no mais íntimo, No tão íntimo, mas tão íntimo que de repente a
palavra nojo não tem mais sentido.[…] O que é que você queria? Rendas
brancas imaculadas? Será que amor não começa quando nojo, higiene ou
qualquer outra dessas palavrinhas, desculpe, você vai rir, qualquer uma
dessas palavrinhas burguesas e cristãs não tiver mais nenhum sentido? Se
tudo isso, se tocar no outro, se não só tolerar e aceitar a merda do
outro, mas não dar importância a ela ou até gostar, porque de repente
você até pode gostar, sem que isso seja necessariamente uma perversão,
se tudo isso for o que chamam de amor. Amor no sentido de intimidade, de
conhecimento muito, muito fundo. Da pobreza e também da nobreza do
corpo do outro. Do teu próprio corpo que é igual, talvez tragicamente
igual. O amor só acontece quando uma pessoa aceita que também é bicho.
Se amor for a coragem de ser bicho. Se amor for a coragem da própria
merda. E depois, um instante mais tarde, isso nem sequer será coragem
nenhuma, porque deixou de ter importância. O que vale é ter conhecido o
corpo de outra pessoa tão intimamente como você só conhece o seu próprio
corpo. Porque então você se ama também.”
Sou fanzaça de Caio Fernando de Abreu.
Verdade seja dita, né? Amor limpinho é coisa de novela, de ficção.
Beijo!
Via Xonei
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